Julho | 2013 Ano IV – Edição 49 – Editorial – Não queremos “Pão e Circo”

 Solange Diniz

“Os verdadeiros vândalos no Brasil têm imunidade parlamentar, fazem orçamentos, assinam contratos de concorrência e nomeiam parentes.” Ricardo Boechat 

Demorei muito a me pronunciar sobre as manifestações que tomaram conta do nosso país. Os colegas jornalistas estranharam a minha falta de posicionamento. Mas, num primeiro momento assistia as postagens no facebook de pessoas colando suas fotos nas passeatas e me passava uma ideia de “este não é um país sério”. Mas, sei que sempre tive minhas reservas com relação aos jovens, até então apáticos no Brasil. Escrevi vários editorias, aqui neste nosso espaço, questionando onde estavam os jovens do nosso país, que assistiam a tudo que acontecia no Brasil de braços cruzados. Num deles, “Educação não é mercadoria”, publicado em fevereiro de 2012, escrevi:

“Vivemos um momento difícil do ponto de vista intelectual. Digo: intelectuais apáticos às corrupções e ao governo; jovens que não se revoltam, não vão às ruas protestar, não fazem nada, mortos, completamente inertes ao que acontece no nosso país. Uma geração inteira que não consegue se indignar diante de nada”.

Ainda incrédula comecei a ler tudo sobre as manifestações, acompanhar pela TV, aos vídeos etc. Até que numa quinta feira alguns estudantes de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ ficaram sitiados e não vi nenhum noticiário de TV falar sobre o assunto. No sábado, no Jornal Nacional, o tema foi abordado sem muita importância, porque já havia invadido as redes sociais e não havia como não noticiar. Mas, o descuido com a matéria foi tanto que até erraram o nome do curso dos estudantes. Bem, “esquecer” que são estudantes de Filosofia é não dar importância à juventude pensante. Achei até que falavam ironicamente sobre o assunto. O episódio e seu desdobramento me deixaram preocupada e vi naquele momento o “ano que não terminou” se repetindo.

A Globo colocou seus repórteres protegidos em arranha-céus na Avenida Presidente Vargas e em helicópteros para olhar bem de longe a manifestação. O fato é que os noticiários de TV não estão mostrando o que realmente acontece no meio da multidão. A truculência da polícia com os manifestantes e jornalistas não é mostrada. É preciso assistir aos vídeos postados nas redes sociais por jornalistas, que estavam no meio do povo para tirar as próprias conclusões.

Durante a audiência pública, que ocorreu no Ministério Público, diversos jornalistas foram ouvidos e relataram casos de perseguição e ameaças após divulgação de matérias, principalmente de cunho investigativo policial, e também casos de agressão física e de prisões ocorridas na cobertura da imprensa das manifestações lideradas pelo Movimento Passe Livre em São Paulo. Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) apontou 41 casos de violência contra jornalistas em todo o país somente do início das manifestações até a manhã do dia 25. No Distrito Federal, o Sindicato dos Jornalistas, além de repudiar os atos de violência, relatou que em um dos episódios mais graves, um repórter cinematográfico da EBC foi ameaçado de morte com um revólver na barriga, para não continuar filmando a movimentação que resultou na invasão do Palácio do Itamaraty.

A minha geração, a que foi às ruas pelas DIRETAS JÁ! foi a última geração que brigou por algum ideal. Acreditávamos que podíamos mudar o país, e mudamos. Mas, infelizmente a democracia se perdeu. Quem acredita que os “Caras Pintadas” tiraram o Collor também deve acreditar em Papai Noel e coelhinho da Páscoa. Então, temos aí 30 anos de passividade, inércia total dos jovens. Os de 2013, entretanto, não querem apenas pão e circo. Querem o futuro e seus direitos. Acordaram os brasileiros que sofrem todos os dias a violência dos ônibus lotados, a violência do transporte público de má qualidade, a violência dos engarrafamentos, a violência da educação de péssima qualidade, a violência da “insegurança pública”, a violência da corrupção, a violência do service precário da saúde, a violência dos salários baixos dos professores e profissionais de saúde, a violência de viver com um salário mínimo etc. Então, fica a pergunta: a violência vem dos jovens de 2013?

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>