Fevereiro |2016| ano VII edição 80 – As Décadas

solAs Décadas

Aos vinte e poucos anos acabamos de sair da faculdade cheios de planos, sonhos, de energia para o trabalho e para a conquista dos nossos bens materiais. Aí vem o primeiro carro, a tão desejada moto, metas para comprar um apartamento, viagens etc. A vida parece ser uma grande festa, muitas baladas, tudo é uma grande novidade a ser descoberta intensamente.

Tudo mais parece não ter muita importância. Ate deixamos escapar o primeiro e grande amor, aquele que talvez fosse o amor da nossa vida merecido a ele naquele momento. Estamos muito envolvidos com o conforto que os bens materiais começam a nos proporcionar e a carreira que vai deslanchando.

Aos trinta e poucos estamos totalmente envolvidos a nossa profissão. Não da mais para voltar atrás, menos é o que pensamos. A vida é uma correria para o trabalho e realizações materiais. Até começamos a questionar o real valor das coisas. Mas não temos tempo para pensar nisso. É tempo de realizar, cuidar dos filhos, proporcionar mais conforto a eles, comprar os brinquedos de ultima geração, comprar uma casa maior, um carro mais confortável, mais dinheiro no banco etc. Queremos mais e mais.

Aos quarenta já não mais nos curvamos á qualquer proposta pelo dinheiro. Aos quarenta desisti de uma profissão já estabelecida para começar outra do zero. É a fase de recomeçar uma nova vida, se não estiver satisfeito com o caminho que a vida tomou. É momento de investir no seu ideal. A vida parece nos escapar, tudo passou tão rápido, tudo parece ter acontecido ontem, mas já se foram 40 anos! Não há mais tempo para errar.

A família, os filhos, a qualidade de vida passam a ser nossas prioridades.

Se errarmos precisamos acertar logo e recomeçar mais rápido ainda, porque ainda há tempo para acertar e ser feliz. Se feliz passa a ser urgente.

Aos cinquenta pensamos que foi uma pena termos ficado tanto tempo correndo atrás do dinheiro, do carro do ano, apartamento grande etc. Por que nos deixamos envolver por um mundo tão capitalista? Os filhos cresceram e você nem viu! Estava trabalhando demais e não teve tempo de brincar com eles. Deixaram o ninho, foram em direção as suas vidas. A vida passou tão rápido e você queria ter ido mais tempo para ficar com as pessoas que ama. A saúde não é mais a mesma. Já dependemos de vários de vários medicamentos. Há esta altura da vida nos damos conta de que muitos entes queridos já se foram. Mais, o tempo é implacável e não volta atrás. Por que não curtimos mais os nossos avós que já se foram? A ausência deles provoca um vazio imenso nos nossos corações. Aquele amor dos vinte anos, que você perdeu, agora parece doer mais que nunca. Parece que estamos revivendo o passado, as lembranças nos atropelam e percebemos todos os erros cometidos. Mas, na vida não há tempo para rascunhos. Precisamos viver de improviso, em garranchos, aos troncos e barrancos e seguir em frente. Na vida fazemos escolhas todo tempo, às vezes acertamos outras não. Muitas vezes não temos outra alternativa se não conviver com as escolhas erradas e a dor do arrependimento.

Ainda falta muito para chegar aos 60. Mas, deixo o espaço aberto para os leitores completarem a minha prosa poética “As décadas”. Mas, a mensagem aqui é nunca deixar nada para fazer amanhã. Faça-o hoje. Viva hoje. Acerte hoje. Peça desculpas já. Invista toda a sua energia na busca da sua felicidade. Comprei um livro que custou-me cinco reais num sebo as frases do Odorico Paraguaçú me fizeram passar uma tarde de domingo às gargalhadas. Então, pensei: “como precisamos de tão pouco para sermos felizes!”. Por que nos envolvemos tanto com este mundo capitalista como não conseguimos nos livrar? Por que temos que comprar o computador de ultima geração se nem iremos utilizar todos os seus aplicativos? Por que precisamos adquirir um celular novo a cada ano se só precisamos dele para nos comunicar? É preciso refletir bravamente sobre o que realmente nos importa e queremos da vida, ou Krónos, o Deus do Tempo, não nos perdoa e tudo passa tão rapidamente. É preciso cuidar de nós mesmos e fazer nosso próprio culto a Esculápio. E como diz Lulu Santos “Sou mais eros do que o seu Tánatos”. Não vamos nos proteger das flechas de Éros e de todas as emoções, todos os arrepios dos beijos, todo calor dos abraços e não simplesmente passar pela vida a esperar pela ceifa de Tánatos.

Solange Diniz é jornalista, escritora, poética, dramaturga.
Autora do Livro “Palavras do Coração”,
Obra que deu origem ao espetáculo “Desalinhos do amor”.
Membro de Academias de Letras e Artes do Brasil e do exterior.

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