Dezembro | 2015 |Ano VI – Edição 78 – Gavetas da Vida

solGavetas da Vida

Resolvi arrumar as gavetas da minha vida. Um novo ano se aproxima e preciso jogar todo o lixo fora. Fiquei com medo de abrir algumas, confesso. Mas, preciso ser forte e encará-las de frente. Nesta cômoda cheia de pequenas gavetas guardei muitas alegrias frustrações, decepções, amores, uma historia de vida.

Não resisti e corri para abrir a que guardava os meus sonhos de menina. Aquela que via um mundo tão cor de rosa. Como tudo vem a tona como se estivesse vivendo aquele momento… a menina que sonhou com o príncipe encantado no cavalo branco, quis ser astronauta, viajar mundo afora e tinha a curiosidade no olhar. Cresceu, mas nunca desistiu de sonhar e alcançar as estrelas.

Na segunda gaveta encontrei uma adolescente rebelde, que brigava pela liberdade com toda a sua força juvenil. Queria mais da vida. Tudo que ela pudesse lhe oferecer. Começou a trabalhar ainda muito jovem, amadureceu rápido. A vida fez dela uma mulher, não sei se ainda preparada para isso.

Na outra gaveta: os amores. Talvez a gaveta mais temida… não foram tantos, mas tão intensos quantos os sonhos de menina. Muitos erros, dores e pranto. Fechei-a rápido… Não é fácil abrir esta gaveta há um grande amor perdido nela. Talvez seja a caixinha de Pandora que ainda espera a volta do amor perdido.

A gaveta que guardou a mulher que se casou e construiu família parecia emperrada. Mas, muito cedo esta mulher descobriu que pra sempre, sempre acaba. Enfrentou de frente todas as traições, jogou tudo pra fora para recomeçar, sem olhar para trás. Acreditando na força desta mulher e contando apenas com ela. Não foi fácil, é verdade. Mas sempre há tempo para recomeçar. E tudo valerá a pena.

Outra gaveta: a profissão. Uma estrada sinuosa para encontrar a verdadeira vocação. Muito tempo perdido? Não sei… Acho que não me arrependo de nada. O mais importante desta gaveta é a louca coragem de deixar uma carreira já estabelecida, para investir numa nova e cheia de desafios em busca da felicidade. Encontrei muitas pedras no caminho, mas retirei-as rapidamente para continuar a caminhada. Acreditando todos no meu talento.

Ah! A gaveta da família… complicada, com muito mofo, traças e preconceitos. Uma batalha para provar a todos o talento de uma artista. Esta gaveta merece uma limpeza extra. Já quebrei muitos padrões de família, mas eles parecem  não ter fim. A cobrança é interminável.

A gaveta da aparência… Não gosto mais do que vejo. Vivi para o outro e esqueci-me de mim. Preciso recuperar  o tempo  perdido e investir em mim imediatamente. Quero voltar a ver a menina que sempre fui. Preciso me dedicar mais a esta gaveta no próximo ano. Tenho de abrir a gaveta do tempo. Mas estou com medo. Há um passado que não gosto de relembrar. Será que as feridas já estarão cicatrizadas?  Estou paralisada. As decepções da vida me impedem de encarar a gaveta do tempo. Prefiro deixa-las lá onde estão. Que fiquem guardadas a sete chaves, bem no fundo da gaveta! Não é hora de tocar nas feridas. É preciso estar muito forte para encará-las sem medo. Abro num outro momento. Que criem mofo e estraguem!

Ainda há muitas gavetas: saúde, do trabalho, dos prazeres, dos inimigos, dos fãs, da palavra não dita, do arrependimento, da solidão, das viagens, do amor não correspondido… Não quero mais abri-las quero encher novas gavetas! Quero o futuro! Quero a vida! Quero novos amores, novas viagens, novos amigos! E que venha Ano Novo com todas as suas maravilhas incertezas e esperanças.

Solange Diniz é jornalista, escritora, poética, dramaturga.
Autora do Livro “Palavras do Coração”,
Obra que deu origem ao espetáculo “Desalinhos do amor”.
Membro de Academias de Letras e Artes do Brasil e do exterior.

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