Dezembro | 2013 Ano IV – Edição 54 – Palavras da Editora: Gavetas da Vida

Solange DinizQueridos leitores,

Mais um ano se passou e compartilhamos neste pequeno espaço nosso carinho pelo nosso bairro. Denunciamos, reivindicamos, valorizamos nossos artistas, compartilhamos sentimentos etc.

Em 2014 o Jornal Novidades completa cinco anos de luta pelo bairro do Méier. Mas, o jornal só existe porque você, leitor, participa, escreve, faz comentários no site e no facebook do Novidades. Gostaria de agradecer a todos os leitores pelo carinho e confiança que têm pelo nosso jornal e pela participação de todos os leitores que enviam e-mails.

Fim de ano é momento de reflexão. Escrevi um texto que gostaria de compartilhar com vocês: “Gavetas da Vida”. Espero que gostem e aproveitem para também limpar todas as gavetas para receber o Ano Novo.

Mais uma vez obrigada!

Solange Diniz

Editora

 

Gavetas da Vida

 

Resolvi arrumar as gavetas da minha vida. Um novo ano se aproxima e preciso jogar todo o lixo fora. Fiquei com medo de abrir algumas, confesso. Mas, preciso ser forte e encará-las de frente. Nesta cômoda cheia de pequenas gavetas guardei muitas alegrias, frustrações, decepções, amores, uma história de vida.

Não resisti e corri para abrir a que guardava os meus sonhos de menina. Aquela que via um mundo tão cor de rosa. Ah! Como tudo vem à tona como se estivesse vivendo aquele momento… A menina que sonhou com o príncipe encantado no cavalo branco, quis ser astronauta, viajar mundo afora e tinha a curiosidade no olhar. Cresceu, mas nunca desistiu de sonhar e alcançar as estrelas.

Na segunda gaveta encontrei uma adolescente rebelde, que brigava pela liberdade com toda a sua força juvenil. Queria mais e mais da vida. Tudo que ela pudesse lhe oferecer. Começou a trabalhar ainda muito jovem, amadureceu rápido. A vida fez dela uma mulher, não sei se ainda preparada para isso.

Na outra gaveta: os amores. Talvez a gaveta mais temida. Não foram tantos, mas tão intensos quanto os sonhos de menina. Muitos erros, dores e pranto. Fechei-a rápido. Não é fácil abrir esta gaveta. Há um grande amor perdido nela. Talvez seja a caixinha de Pandora que ainda espera a volta do amor perdido.

A gaveta que guardou a mulher que se casou e constituiu família parecia emperrada. Mas, muito cedo esta mulher descobriu que pra sempre, sempre acaba. Enfrentou de frente todas as traições, jogou tudo fora para recomeçar, sem olhar para trás. Acreditando na força desta mulher e contando apenas com ela. Não foi fácil, é verdade. Mas, sempre há tempo para recomeçar. E tudo valerá à pena.

Outra gaveta: a profissão. Uma estrada sinuosa para encontrar a verdadeira vocação. Muito tempo perdido? Não sei… Acho que não me arrependo de nada. O mais importante desta gaveta é a louca coragem de deixar uma carreira já estabelecida, para investir numa nova e cheia de desafios em busca da felicidade. Encontrei muitas pedras no caminho, mas retirei-as rapidamente para continuar a caminhada. Acreditando todos os dias no meu talento.

Ah! A gaveta da família… Complicada, com muito mofo, traças e preconceitos. Uma batalha para provar a todos o talento de uma artista. Esta gaveta merece uma limpeza extra. Já quebrei muitos padrões de família, Mas eles parecem não ter fim. A cobrança é interminável.

A gaveta da aparência… Não gosto mais do que vejo. Vivi para o outro e esqueci de mim. Preciso recuperar o tempo perdido e investir em mim imediatamente. Quero voltar a ver a menina que sempre fui. Preciso me dedicar mais a esta gaveta no próximo ano.

Tenho de abrir a gaveta do tempo. Mas, estou com medo. Há um passado que não gosto de relembrar. Será que as feridas já estarão cicatrizadas? Estou paralisada. As decepções da vida me impedem de encarar a gaveta do tempo. Prefiro deixá-las lá onde estão. Que fiquem guardadas a sete chaves, bem no fundo da gaveta! Não é hora de tocar nas feridas. É preciso estar muito forte para encará-las sem medo. Abro num outro momento. Que criem mofo e estraguem!

Ainda há muitas gavetas: da saúde, do trabalho, dos prazeres, dos inimigos, dos fãs, da palavra não dita, do arrependimento, da solidão, das viagens, do amor não correspondido… Não quero mais abri-las. Quero encher novas gavetas! Quero o futuro! Quero a vida!  Quero novos amores, novas viagens, novos amigos! E que venha o Ano Novo com todas as suas maravilhosas incertezas e esperanças.

Solange Diniz

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